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Depois de um ano e meio em recesso por conta da gravidez e dos cuidados com a pequena Madalena, Pitty, 39, voltou aos palcos em junho deste ano no festival João Rock, em São Paulo, como única mulher no line-up. Em março já havia retornado às telas como apresentadora do programa Saia Justa, do canal fechado GNT. Ainda em ritmo lento, reorganizando a carreira, ela veio duas vezes a Salvador neste mês como parte de uma agenda especial de apresentações que planejou para 2017. No dia 10, esteve no Teatro Castro Alves como convidada do projeto Mulher com a Palavra, que discute empoderamento feminino. “Fico feliz por poder dialogar, debater, questionar, refletir junto com as pessoas. Isso não é ‘bondade’, é obrigação social de qualquer cidadão que deseja viver num ambiente mais justo”. A primeira convidada do evento foi outro ícone feminista, a cantora Elza Soares, com quem Pitty gravou uma faixa que será lançada ainda este mês. No dia 30, fará uma apresentação na Concha Acústica do TCA, para além da turnê do álbum Sete Vidas. “A relação com esse palco é totalmente emocional. Quando penso em tocar na Concha até hoje vem o frisson da adolescência, das primeiras vezes que eu pisei ali no Garage Rock e de como isso era importante”. Nesta entrevista, feita por e-mail, ela falou também sobre movimentos feministas radicais, a relação com os fãs e política.



Em recente entrevista concedida a Mônica Bérgamo, da Folha de S.Paulo, você falou sobre as dificuldades enfrentadas pela mulher durante o puerpério. Como está sendo conciliar a volta da carreira e os cuidados com Madalena?

Agora estou começando a me reorganizar. Tudo tem seu tempo, e, nesse caso, meu processo foi bem longo; fiz questão de me dedicar exclusivamente a ela nesse primeiro momento, e só depois de nove meses é que vejo as coisas começarem a se ajeitar. Voltei a trabalhar aos poucos, arrumei uma pessoa massa e de confiança para me ajudar a tomar conta dela.


Na sua volta aos palcos no João Rock 2017 você foi a única voz feminina do festival. Esse é um dos indícios de que o rock ainda é uma arena dominada por homens, o que implica maior número de referências masculinas. Quais referências femininas estão refletidas no seu trabalho?

Durante muito tempo minhas referências eram majoritariamente masculinas, muito por isso que você citou. O que também era um incentivo no sentido do pioneirismo, do quebrar barreiras. Esse desafio sempre me atrai. Com o tempo fui observando e encontrando as referências femininas e, depois, passei a valorizá-las e a fazer questão de mostrar isso para outras meninas que porventura venham a querer ter banda. Simone de Beauvoir, Florbela Espanca, Hilda Hilst, Carolina de Jesus, Elis Regina, Rita Lee, Madonna, Nina Simone, Tina Turner, Sofia Coppola, Kate Moss, Alison Mosshart... dá para citar uma lista boa de mulheres maravilhosas que me fazem querer fazer arte.

O show na Concha Acústica do TCA, no dia 30 deste mês, é um dos especiais que está preparando este ano, independentemente da turnê do álbum Sete Vidas. Qual a sua relação com esse palco e como espera que seja o retorno?

A relação com esse palco é totalmente emocional. Quando penso em tocar na Concha até hoje vem o frisson da adolescência, das primeiras vezes que pisei ali no Garage Rock e de como isso era importante. Aquele palco era só para bandas que eu admirava, tinha assistido tanta gente ali e de repente eu estava naquele palco. Era, e continua sendo, uma conquista. Tenho muitas histórias com a Concha... já entrei muito de penetra porque não tinha dinheiro para o ingresso! Já caí naquele fosso numa roda de povo bem boa mesmo. Uma vez, acho que foi Garage, levei meu irmão novinho, com uns 10 anos, e botei ele no meio do povo com um amigo meu tomando conta enquanto eu tocava. Ou seja, já deu pra sacar que pisar naquele chão vai estar carregado de significados, de amores, de dores, de emoção.


Apesar de morar fora de Salvador há 14 anos, ainda acompanha a produção musical soteropolitana? Como vê o cenário do rock, especificamente?

Ultimamente não tenho tido muita notícia, mas é porque também com esse lance da gravidez, de repouso, etc., eu não tenho visto é nada de canto nenhum (risos). Foi um período onde nem notícia de jornal eu conseguia ler! E ainda estou abrindo espaço para isso porque gosto de estar ligada no que está rolando, principalmente aí. Acho que não é tão novo assim, mas me amarro em BaianaSystem.


Suas composições sempre foram inspiradas em momentos pessoais da sua vida. No último álbum, Sete Vidas, isto é bem evidenciado, com músicas que retratam uma internação hospitalar e a morte do seu ex-guitarrista Peu, por exemplo. De que forma a maternidade tem influenciado seu trabalho?

Ainda nem cheguei a esse momento. A vida está me atropelando de tal forma que nem tenho tempo para escrever, refletir. Acho que esse momento vai rolar mais pra frente, quando a parte prática estiver mais ajeitada, sabe? Agora estou focada em trabalhar, em retomar essa parte de mim que ficou tanto tempo parada.


Em abril, você gravou Na Pele, de sua autoria, com Elza Soares. Como foi a parceria com ela, que também é um ícone feminista no Brasil?

Foi incrível, um sonho realizado. A admiração que tenho por essa mulher nem cabe nessas linhas. Tinha escrito a música e mostrei a ela, para usar como quisesse. Ela quis gravar comigo, imagine! Foi melhor que a encomenda...


Você veio para Salvador como convidada do projeto Mulher com a Palavra, que propõe uma discussão sobre empoderamento feminino, no dia 10 de julho. A convidada da primeira edição foi justamente Elza. Qual a responsabilidade de ter sua voz amplamente repercutida?

Fico feliz de poder dialogar, debater, questionar, refletir junto com as pessoas. É assim que a gente cresce enquanto sociedade, através desse embate, exposição de ideias e sentimentos. E, mais do que nunca, precisamos falar sobre a questão das mulheres, das negras, das gays, das trans, das em maior situação de vulnerabilidade. Isso não é “bondade”, é obrigação social de qualquer cidadão que deseja viver num ambiente mais justo.


Você já se posicionou publicamente em momentos de crise na política. Em 2015, por exemplo, fez um show na Escola Estadual Gavião Peixoto, em Perus, São Paulo, que estava ocupada por estudantes contrários à reestruturação do sistema educacional estadual, que previa o fechamento de escolas e o remanejamento de alunos e professores. Como vê o momento atual da política brasileira?

Muito triste e preocupante. Acompanho estupefata as notícias, e a coisa é completamente absurda, é difícil entender como não há mobilizações efetivas, gente nas ruas, etc. Parece que a democracia foi tão golpeada e a Justiça anda tão desacreditada que a sensação é que estão todos anestesiados. Mas precisamos sair desse torpor e botar a mão na massa, pois mudanças importantes estão sendo feitas.


Desde março, você está semanalmente à frente do programa Saia Justa, no canal fechado GNT, ao lado das atrizes Taís Araújo e Mônica Martelli e da jornalista Astrid Fontenelle. Como tem sido essa experiência como apresentadora?

Eu estou adorando. Além de curtir muito esse formato de programa, que propõe a reflexão e a troca de ideias, também tenho aprendido muito. A cada semana são três temas diferentes, e isso me obriga a estudar, a pesquisar, a ler mais. É ótimo.


Sua relação com os fãs sempre foi sincera. Na sessão “Boteco” do seu site, costumava conversar com eles sobre diversos assuntos. Como manter uma relação íntima sem perder a privacidade?

Estabelecendo limites. Deixando claro até onde se pode ir, até onde é saudável. Prezo muito a comunicação sincera e tenho horror a demagogia. É muito fácil se aproveitar desse amor e ser paternalista. Vejo muito artista fazendo isso, mas eu não acho justo e prefiro estimular relações mais calcadas no afeto transparente.


Ainda sobre comunicação, o que acha de movimentos feministas mais radicais, que não consideram mulheres trans ou não dialogam com os homens, por exemplo?

Acho que todas as linhas de pensamento dentro do feminismo merecem respeito e têm seus motivos, mas, particularmente, acho que isso não funciona e não nos leva a nenhum avanço real. Penso que se relacionar com os outros gêneros é importante, assim como entender a interseção entre eles e a variedade de recortes que existem dentro do feminismo. As questões não são as mesmas para mulheres brancas, negras, lésbicas, héteros, ricas, pobres, trans. Eu penso num feminismo que olha para esses recortes e que dialoga com o masculino, afinal eles são quase a metade da sociedade, e o que precisamos é viver juntos e bem. Envolver os homens na questão feminista para mim significa que eles devem escutar, aprender, desenvolver empatia. Protagonizar não. Até porque não faz o menor sentido.


Em Desconstruindo Amélia, do álbum Chiaroscuro, fica clara a sua crítica aos papéis que foram impostos culturalmente às mulheres. Você acredita que, apenas por ser mulher, o seu som é consequentemente mais engajado?

Acho que não necessariamente. Vejo engajamento de muitas formas em muitas pessoas, mulheres e homens. Especificamente no meu caso, não tinha como ser diferente, sendo fruto de onde venho, com a bagagem que tive de vivência. O conflito de ser quem eu era numa cidade como Salvador tem muito a ver com esse discurso e essa vontade de querer subverter padrões. A coisa de abrir espaço para realizar desejos artísticos, pessoais, subjetivos mesmo. No meu caso também acresce a questão de ser mulher, porque foi e é uma luta dupla.



Fonte:atarde.uol.com.br

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